Projeto Espreita

Os estudantes do PET-Direito desenvolveram o Projeto Espreita, de base dialética e interdisciplinar, com o intuito de utilizar o cinema como instrumento de conhecimento crítico, orientado a contestar a história e as ideologias dominantes através de um espaço de discussão e divulgação de obras e idéias artísticas que dialoguem com as mais diversas áreas do saber. Como prática pedagógica, a inclusão da sétima arte como forma ao mesmo tempo lúdica e reflexiva de formação de uma consciência emancipatória possibilita a retomada de discussões que circundam a crítica do direito como: a violência estrutural do capitalismo, a indústria cultural globalizada, os novos movimentos sociais e os conflitos políticos na América Latina.
O Projeto teve início em julho de 2006, no auditório do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), com a exibição do filme A Batalhade Argel, de Gillo Pontecorvo. Após essa sessão, iniciou-se, em outubro desse mesmo ano, o primeiro ciclo do projeto: “Conflitos Armados”. Os filmes apresentados foram: Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola; O Franco Atirador, de Michael Cimino; e Fahrenheit 451, de François Truffaut.
Em seguida realizou-se o ciclo “Totalitarismo e Distopia”, apresentando um mundo ficcional onde a reprodução do capital estendeu-se à reprodução do pensamento e comportamento humanos, serviu de ponte para reflexão do mundo em que vivemos. É desse modo que as personagens de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick; Brazil – O Filme, de Terry Gilliam; Alphaville, de J. L. Godard; e 1984, de George Orwell reportam à análise dos mecanismos de manipulação midiática orientados à passividade do pensamento.
Em abril de 2007, foi apresentado um ciclo exclusivo sobre a escola que revolucionou o conteúdo e a forma de se fazer cinema, o “neo-realismo italiano”. Influência direta dos diretores brasileiros do Cinema Novo, os filmes Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica; A Terra Treme, de Luchino Visconti; Roma – Cidade Aberta, de Roberto Rossellini; e O Grito, de Michelangelo Antonioni expõem uma crítica social incisiva à ordem burguesa, inclusive com o uso de atores não-profissionais, uma afronta direta à “arte pela arte” da intelectualidade esclarecida do pós-guerra.
Em junho desse mesmo ano o projeto Espreita realizou uma parceria com o Núcleo de Estudos e Práticas Emancipatórias (NEPE) com a exibição do ciclo “Desigualdades e Cidadania: construindo a Assessoria Jurídica Popular”. Entre os filmes desse ciclo estão: Quanto vale ou é por quilo, de Sérgio Bianchi; A revolução não será televisionada, de Kim Bartley e Donnacha O’Briain; Sonho real: uma história de luta pela moradia, do Centro de Mídia independente (CMI) de Goiânia; e O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach.
A criminologia também ganhou os olhos dos espectadores, no final de 2007, através do terceiro ciclo, intitulado “Violência e Controle Social”, cujo objeto de análise expõe a realidade dos grupos urbanos criminalizados e do encarceramento em massa no Brasil. Os filmes exibidos foram: Notícias de uma guerra partícular, de João Moreira Salles & Kátia Lund; Ônibus 174, de José Padilha; e O Prisioneiro da grade de ferro, de Paulo Sacramento.
O projeto Espreita iniciou o ano de 2008 exibindo, em duas sessões conjuntas com o Circula Ali Primeira (projeto de cinema do Instituto de Estudos Latino-Americanos – IELA), os filmes Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov e Memoria del Saqueo, de Fernando Solanas, que refletem as “guerrilhas e conflitos urbanos” na história da América Latina. O último ciclo foi realizado em maio de 2008, numa parceria com o PET-Serviço Social, em comemoração aos 40 anos do “maio de 68”. Como retrospecto desse período foram exibidos os filmes La Chinoise, de J. L. Godard; Amantes Constantes, de Philippe Garrel; Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, e Os Sonhadores, de B. Bertolucci.
Para além do seu caráter pedagógico de método de ensino, o projeto também se coloca perante outros desafios tanto no âmbito da pesquisa quanto da extensão. Os temas tratados pelos filmes fazem parte de análises feitas por pesquisas que desenvolvem uma abordagem crítica e interdisciplinar das teorias e práticas da cultura, da arte e do direito. A diversidade de temas que o cinema já produziu possibilita uma profunda interlocução com as disciplinas que permeiam o ensino jurídico. No entanto, se por um lado faz-se necessário estreitar laços entre a riqueza cinematográfica e a academia, por outro é imprescindível usar o cinema para intercambiar conhecimentos e experiências com a sociedade extra-muros. Nesse sentido, a pedagogia de Paulo Freire em muito pode contribuir, através da superação da lógica bancária de aprendizagem, onde há mero depósito de conhecimento, e da consolidação de uma relação onde sujeitos interajam de forma igual e dialógica.
Atualmente, o Projeto Espreita passa por um período de reconfiguração, no intuito de ser transportado para além da universidade. É a partir desse viés transversal que o Projeto objetiva transgredir o isolamento do saber acadêmico da Universidade por meio da atuação junto a comunidades da periferia de Florianópolis. Nesse sentido, busca um diálogo entre o saber erudito e o popular, fomentando espaços de formação cidadã com a democratização e o acesso aos meios audiovisuais que possibilitem o surgimento de criações e atos libertadores nos quais o cinema e a educação popular tenham um papel efetivo de transformação social.
ESPREITA 2010

  

ESPREITA 2009.02