Piratas e tubarões

Semana passada, por ocasião dos protestos virtuais contra duas leis antipirataria em discussão no congresso nacional americano – a SOPA (Stop Online Piracy Act) e a PIPA (Protect Intelectual Property Act) –, nosso site ficou por 24 horas em blecaute. Juntou-se, assim, aos mais de sete mil endereços na internet que fecharam seus acessos ou bloquearam ou modificaram seu conteúdo a fim de divulgar os riscos que corríamos junto a essas iniciativas do “velho mundo”, no sentido que lhe emprega Hernán Casciari no texto mais abaixo.

O dia seguinte ao blecaute virtual internacional – surpreende-me positivamente a estranheza ao juntar essas duas palavras, neste ambiente ainda sem territórios definidos que é, por definição, uma rede – mostrou que nossos avós do copyright não estavam para brincadeira, e o FBI fechou o site de compartilhamento de arquivos MegaUpload. A ação não ficou sem pronta-resposta, levantando-se os Anonymous contra a atitude do escritório americano, derrubando inúmeros sites; entre eles, o do próprio FBI.

A discussão, pelo menos de onde eu acompanho, está inflamada. No fim do ano passado, dotada de um precário senso de timing, ou uma premonição invejável, a escritora espanhola Lucía Etxebarría anunciou sua retirada definitiva da literatura em protesto contra a pirataria. Hernán Casciari, escritor portenho, respondeu-a publicamente, em seguida, em uma coluna do jornal argentino Página 12. (No dia 5 de janeiro deste ano, a escritora já havia voltado atrás em sua declaração, aqui.)

Reproduzo, traduzido e distorcido, abaixo, o texto veiculado pelo jornal em sua plataforma online. Provavelmente, com isso, infrinjo, em desconcertada ironia, algumas regras de veiculação de conteúdo do Página 12, cujo site, “desenvolvido com software livre GNU/Linux”, está protegido sob o copyright. Pode ser porque não se deve esperar muita coerência de velhos gagás.

Ao final, o link para a publicação original.

Boa leitura.

Victor Porto Cândido

 

Piratas e tubarões

Na semana passada, a famosa escritora valenciana Lucía Etxebarría (Beatriz y los cuerpos celestes, Un milagro en equilibrio, Premio Planeta 2004) anunciou a sua retirada indefinida do mundo literário como forma de protesto contra a pirataria. Uma parte do mundo editorial saiu em seu apoio, mas Hernán Casciari, autor da “blognovela” Más respeto que soy tu madre (adaptada para o teatro por Antonio Gasalla) e editor da revista Orsai, uma feliz raridade (sem publicidade e com venda antecipada), deu a conhecer esta carta na qual diz a Lucía que não é para tanto, e que os malvados estão por todos os lados.

Por Hernan Casciari

O contador de assinaturas anuais da nova revista Orsai acaba de chegar a mil. Em nove dias, e sem que saibam seus conteúdos ou sua quantidade de páginas, mil leitores já compraram as seis revistas do próximo ano. E isso apesar de que todos sabem que será lançada uma versão em pdf, gratuita, no mesmo dia em que cada revista chegar a suas casas. Repito: acabamos de vender seis mil revistas. Seiscentas e sessenta e cinco por dia. Vinte e oito por hora.

Ao mesmo tempo, uma escritora espanhola acaba de informar que deixará de publicar. “Dado que já foram baixadas mais cópias ilegais de meu romance que cópias compradas, anuncio que não voltarei a publicar livros”, disse ontem Lucía Etxebarría. A mídia tradicional fez eco de suas palavras e a indústria editorial a acolheu: “Pobrezinha, vejam o que a internet está fazendo com nossos autores!”

Conosco, acontece o mesmo. Em 2011, editamos quatro Orsai. Vendemos uma média de sete mil exemplares de cada uma, e com esse dinheiro pagamos (extremamente bem) todos os seus autores. Os pdfs gratuitos dessas quatro edições alcançaram os seiscentos mil downloads ou visualizações na internet.

Vendemos sete mil, foram baixadas seiscentas mil.

Se os casos de Lucía Etxebarría e de Orsai são idênticos, e ocorrem no mesmo mercado cultural, por que esses números nos causam alegria e a ela provocam mal estar?

A resposta, talvez, é que se trata do mesmo mercado – mas não do mesmo mundo.

Existe, cada vez mais, um mundo novo, onde o número de downloads e o número de vendas físicas se somam; seus autores dizem: “que coisa boa, quanta gente me lê!” Contudo, ainda sobrevive um mundo velho, onde se subtraem essas duas cifras; seus autores dizem “que horror, quanta gente não me compra”.

O velho mundo se baseia em controle, contrato, exclusividade, confidencialidade, obstáculo, representação e dividendo. Tudo aquilo que ocorre por fora de seus padrões é cultura ilegal.

O mundo novo se baseia em confiança, generosidade, liberdade de ação, criatividade, paixão e entrega. Tudo aquilo que ocorre por fora e por dentro de seus parâmetros é bom, desde que todos possam desfrutar da cultura, paguem ou não paguem por isso.

Dito de outro modo, não é responsabilidade dos leitores que não pagam que Lucía seja pobre, mas do modo como seus editores dividem as ganâncias dos leitores que pagam. Mundo velho, mundo novo. Há duas semanas, vivi um caso muito claro do que ocorre quando esses dois mundos se cruzam. Vou contá-lo a Lucía e a vocês, porque é divertido:

Recebo uma ligação telefônica de uma editora de Alfaguara (Grupo Santillana, de Madri); me diz a editora que estão preparando uma antologia da atual crônica latinoamericana. E que querem um conto meu que aparece em meu último livro, “um conto que chama tal e tal, do qual gostamos muito.”

Digo-lhe que é claro, que tome o conto o quanto queira. Responde-me que me enviará um e-mail para solicitar a autorização formal. Digo que tudo bem.

Durante a semana, me chega o e-mail com um arquivo anexo:

“Caro Hernán, explico o que lhe adiantei ao telefone: a Alfaguara está para editar uma antologia de blá blá blá, cuja seleção e prólogo está a cargo de Fulano de Tal. Ele quis incluir seu conto X. Se você está de acordo com o contrato que envio, remeta-me duas cópias em papel com todas as páginas firmadas para o seguinte endereço” (e anota o endereço da Prisa Ediciones, Alfaguara).

Abro o arquivo anexo, leio o contrato. A leitura dos contratos do mundo velho é fascinante. Não têm o mínimo pudor em disfarçar suas gravatas.

Chamam o conto que me pedem de “contribuição”. Na cláusula quarta, dizem que “o editor poderá efetuar quantas edições estime convenientes, até um máximo de cem mil (100.000).” Na cláusula quinta, inserem: “Como remuneração pela cessão de direitos da ‘contribuição’, o editor remunerará o autor com cem euros (100?) brutos, sobre os quais serão calculados os impostos e serão praticados os descontos correspondentes.”

Pensei nos outros autores que compõem a antologia, os que certamente assinam contratos assim. Cem euros menos impostos e descontos são sessenta e três euros, e ainda se deve retirar os quinze por cento que leva o agente ou representante (todos têm um), o que quer dizer que ao autor sobram cinquenta e três euros, limpos. Não importa que a editora venda dois mil livros ou cem mil livros. O autor sempre levará cinquenta e três euros. Será que Lucía Etxebarría firma contratos como esse?

Essa mesma tarde respondi o e-mail à editora de Alfaguara:

“Oi, Laura, o conto que você deseja aparece em meu último livro, distribuído sob uma licença Creative Commons Reconhecimento 3.0 Unported, a mais generosa. Isto é, você pode compartilhar, copiar, distribuir, executar, produzir obras derivadas e até mesmo fazer uso comercial de qualquer um dos contos, desde que seja creditado o autor. Envio-lhe o texto para que faça com ele o que queira, e que este e-mail sirva como comprovante. Mas não posso assinar essa porcaria legal espantosa. Um beijo.”

A resposta chegou uns dias depois; já não era ela quem falava comigo, mas outra pessoa:

“Hernán: entendemos isto, porém o departamento legal necessita de que você assine o contrato para que não tenhamos problemas no futuro. Saudações!”

E já não respondi mais nada. Para que continuar essa corrente de e-mails?

A anedota é essa, não é grande coisa. Quero dizer, contando-a, que não há que lutar contra o mundo velho, nem sequer há que debater com ele. Há que deixá-lo morrer em paz, sem incomodá-lo. Não temos que ver o mundo velho como aquele pai castrador que foi em seus bons tempos, mas como um avozinho com Alzheimer.

– Me dá isso? – disse o avozinho.

– Sim, vovô, pegue.

– Não, assim não. Assine este papel onde você afirma que me entrega isso e eu, em troca, te cuspo na cara.

– Não precisa, vovô, eu te dou. É de graça.

– Preciso que me assine este papel, não posso aceitar de graça!

– Mas por quê, vovô?

– Porque se não te cago de alguma maneira, não sou feliz.

– Bom, vovô, outro dia nos falamos… Te amo muito.

E é de verdade que amamos esse vovô. Há vinte, trinta anos, esse homem que agora está gagá ensinou-nos a ler e pôs livros amáveis em nossas mãos.

Não há que debater com ele, porque gastaríamos energia no lugar errado. Há que usar essa energia para fazer livros e revistas de outra maneira; há que voltar a apaixonar-se por ler e escrever; há que defender até a morte a cultura, para que não esteja nas mãos de vovós gagás. Mas não há que perder tempo lutando contra o avô. Temos que falar somente com nossos leitores.

Lucía: você tem um montão de leitores. É uma escritora com sorte. O demônio não são seus leitores – nem os que compram seus romances, nem os que baixam suas histórias da rede.

Não há demônios, na verdade. O que existe são dois mundos. Duas maneiras diferentes de fazer as coisas.

Está em você, em nós, em cada autor, seguir assinando contratos absurdos com velhos dementes – ou começar a escrever uma história nova, que todo o mundo possa ler.

http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-7594-2012-01-02.html

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